Além das dificuldades de lidar com a covid-19 em hospitais e outros pontos de atendimento, integrantes das equipes de saúde do DF precisaram, muitas vezes, assumir o tratamento dos colegas de trabalho infectados. O Correio apresenta algumas dessas histórias

 

A rotina nas unidades de terapia intensiva (UTIs) mudou desde a chegada do novo coronavírus. O medo da infecção pelo micro-organismo começou a fazer parte do dia a dia de profissionais da saúde que encaram rotinas exaustivas, em que o foco é dar tudo de si para cuidar dos outros. Mas e quando o paciente é um colega de trabalho? Após mais de um ano de pandemia da covid-19 e de incontáveis vidas perdidas para a doença, as equipes que atuam na linha de frente também precisaram se tornar responsáveis pela vida dos colegas de profissão com quem dividiam os postos no front.

A enfermeira Luana de Miranda Constantino, 31 anos, viveu isso de perto, ao cuidar de amigos infectados pela doença. “A maior dificuldade é não saber o que vai acontecer. Ver o resultado positivo de quando ele (o paciente) sai é ótimo, mas há aqueles que vemos desenvolver complicações. Quando começaram a internar nossos colegas, eu pensava que podia ser eu, alguém da minha família. Chegávamos preocupados e queríamos que eles saíssem (da UTI) o quanto antes”, recorda-se.

Após trabalhar para tratar enfermeiros, técnicos e médicos, Luana também precisou de cuidados. Em junho do ano passado, contraiu a covid-19. Quando começou a apresentar sintomas, a funcionária do Hospital Santa Marta, em Taguatinga Sul, contatou uma referência no pronto-socorro da unidade de saúde, a intensivista Adeles Vasconcelos. “Eu estava com tosse e febre. Ela falou para eu fazer o teste e decidiu me internar na enfermaria, por causa da minha obesidade”, conta Luana. “Foi um baque quando comecei a desconfiar (da infecção). Fiquei bem assustada, preocupada e estava longe da família. Ninguém mora aqui em Brasília.”

Sem parentes por perto, a enfermeira encontrou apoio nos colegas de trabalho. “Eu não tinha os familiares, mas tinha amigos, que iam todos os dias me visitar na porta (do quarto), dando presentes, mostrando uma rede de apoio”, relata Luana. Após oito dias internada, ela agradeceu a todos que a ajudaram na recuperação: “A recepção depois de tudo que vivi foi muito legal. Desenvolvemos uma ligação fraterna. Foi ótimo voltar e ver meus colegas bem”.

 

Apreensão para intubar o chefe

“Até hoje, agradeço quando os vejo”, diz o diretor da equipe médica do Hospital Santa Luzia, Frederico José Cavalcante Costa, 59 anos. Em julho de 2020, ele lidou com um quadro grave da covid-19. Passou um mês internado e mais 30 dias em casa, em recuperação. Hoje, ele reconhece que a melhora só foi possível graças aos profissionais da unidade de saúde, incluindo Marcelo Maia, 56, chefe da UTI para pacientes com a doença.

Frederico teve os primeiros sintomas no fim daquele mês. Os sintomas pioraram, e Marcelo entrou em cena. “Eu o conhecia há muitos anos. Sabia que ele tinha experiência com a doença. Naquela época, ela era nova para todos. Mas ele era um cara em quem eu tinha total confiança. Foi a equipe dele e o time da enfermagem que me trouxeram de volta”, comenta Frederico.

Para ele, lidar com a covid-19 foi a fase mais complicada pela qual passou. “Eu me lembro até hoje de quando fui intubado. Foi no Dia dos Pais. Era muito difícil, como médico, saber o que eu enfrentava. Ainda precisei me despedir dos meus filhos. Eu não tinha certeza se retornaria ou de como isso aconteceria. A doença é uma incógnita para todos, porque a resposta é diferente de paciente para paciente. Depois que me recuperei, passei a dizer que escapei porque estava no lugar certo”, avalia Frederico.

Enquanto ele recebia cuidados dos colegas, Marcelo coordenava os profissionais e tentava manter o quadro do chefe estável. “Internar seu diretor, no seu hospital, com um quadro de covid-19 e naquele momento de altas taxas de mortalidade era muito difícil para a equipe”, comenta. “Então, você passa pelo segundo momento de terror psicológico, quando tem de colocar o líder do time em ventilação, baseado em modelos (de procedimentos) que não são do Brasil e têm taxas de mortalidade elevadas. Isso cria, em todo mundo, uma apreensão”, completa.

Para Marcelo, a tomada de decisões se torna mais delicada quando envolve um parceiro de trabalho: “O intensivista tem de fazer escolhas que variam em segundos. Uma delas que não seja a melhor pode colocar alguém em risco. Todos os pacientes são graves, todos são críticos. Mas é diferente quando são seus colegas”, observa.

 

Confiança nos amigos

A enfermeira Thassia Soares e Silva, 36 anos, da unidade de internação do Sírio-Libanês em Brasília, está no combate à pandemia desde o início da crise sanitária, em março de 2020. Nesse tempo, ela precisou tratar muitos profissionais que atuam com ela no hospital. Nessas horas, profissionalismo e jogo de cintura são fundamentais. “Temos de ser durões, deixar a emoção de lado e agir com a razão. Nosso psicológico fica abalado e nos vemos como seres humanos passíveis de viver isso”, relata.

Depois dos obstáculos de cuidar de pessoas conhecidas em situação tão delicada, o retorno para o trabalho de quem precisou se afastar é sempre motivo de festa. “Quando vemos que deu certo, que valeu a pena, sentimos a mesma emoção que eles (os pacientes). (A recuperação) é mais gratificante, porque eles estão cientes de nossas falhas e nossos acertos.”

Apesar da alegria, a enfermeira conta que a comemoração não deixa de ter um lado triste: “Infelizmente, não podemos dar aquele abraço. É um sentimento de solidão, porque passamos dias apreensivos e, quando eles voltam (ao trabalho), não podemos pular no pescoço. Temos de vibrar de longe. Hoje, é por meio do olhar que passamos a alegria, com o sorriso apertadinho do olho, recheado de lágrimas”, descreve Thassia.

O chefe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Santa Lúcia, Werciley Saraiva Júnior, 37, foi um dos profissionais recebidos da maneira que a enfermeira descreveu, após se recuperar da covid-19. O médico recebeu alta após passar 13 dias internado. “Em maio de 2020, tive sintomas. Dois dias depois, precisei ser intubado”, conta o responsável pela criação de protocolos de atendimento para pacientes com a doença em todas as unidades do grupo.

Durante o tratamento, o infectologista recebeu cuidados de profissionais de saúde treinados por ele próprio. “A vantagem de estar ao lado de pessoas de confiança é estar com amigos. E, quando você volta (ao trabalho), sente-se emocionado por estar perto deles, por se sentir útil e, principalmente, por ver que aquilo que você idealizou funcionou”, destaca.

Fonte: Correio Braziliense